Mercado Editorial

Mudanças ditam novos rumos para o formato ePub

Por Fernando Tavares.

IDPF, responsável pelo desenvolvimento do formato e, portanto, cria, aperfeiçoa e tenta motivar as empresas de publicações digitais, e o W3C, órgão que especifica toda a web e cuida da evolução da linguagem HTML, CSS, SVG, XML e muitas outras siglas que fazem a web funcionar, se uniram para promover melhor o desenvolvimento das publicações digitais .

Mudanças sempre nos assustam de um modo ou de outro, seja porque as coisas estão funcionando bem e tememos que ficarão ruins (em time que está ganhando não se mexe) ou porque já estão ruins e tememos que piorarão! Todavia, no mundo da editoração digital, as mudanças são diárias e precisamos compreendê-las para não nos tornarmos reféns do medo e sabermos escolher com ponderação.

Entre as mudanças que nos esperam em 2017 está a união do IDPF (International Digital Publishing Forum) com o W3C (Word Wide Web Platform). O primeiro, é responsável pelo formato ePub e, portanto, cria, aperfeiçoa e tenta motivar as empresas de publicações digitais para que apliquem as especificações do ePub garantindo assim o funcionamento correto do seu e-book em todas as plataformas de leitura (ou quase!). O segundo é responsável pelas especificações de toda a web. Cuida da evolução da linguagem HTML, CSS, SVG, XML… e muitas outras siglas que fazem a web funcionar (permitindo a você ler este texto em um navegador, por exemplo).

Esta união vem sendo anunciada e estudada desde o ano passado, quando integrantes do IDPF e interessados foram convidados a dar feedback sobre a união e foi disponibilizada uma FAQ sobre a questão, que finalmente no dia 18 de janeiro passado foi sancionada em um encontro no Digital Book World (Nova York City). Na prática, o IDPF deixa de existir unindo-se definitivamente ao W3C com o propósito de dar continuidade ao trabalho de produção das especificações do ePub.

Quais são as vantagens?

A ideia desta união é juntar esforços para promover melhor o desenvolvimento das publicações digitais. O W3C já vinha trabalhando em um novo tipo de formato o Portable Web Publication, que permitiria a apresentação do conteúdo tanto online (streaming) quanto off-line (empacotado). O foco atual do formato ePub é sobretudo a leitura off-line, porém fazendo uso de especificações web, como por exemplo o HTML e o CSS (que são desenvolvidos pelo W3C), sendo até apresentado como um mini site empacotado. Todavia, o formato não funciona online de modo nativo, sendo preciso instalar extensões ou programas para que possa ser lido em um navegador web.

Todos sabemos o drama que é a utilização dos softwares para a leitura de um arquivo ePub. Seria tudo mais prático se ele simplesmente abrisse em um navegador como o Chrome, o Firefox ou o Safari. Um dos objetivos da união entre os dois grupos é justamente desenvolver isto. A equipe do IDPF que estava desenvolvendo o ePub3 agora se juntará ao Digital Publishing Interest Group para trabalhar no ePub4 que tem como objetivo ser um formato mais flexível e integrado com as tecnologias que já existem na web (acessibilidade, multimídia, design…)

Em outubro no ano passado, em Portugal, já aconteceu uma reunião entre os membros do IDPF e os desenvolvedores do W3C para os primeiros testes de colaboração. Várias questões foram levantadas entre elas a acessibilidade dos conteúdos (que já vem sendo desenvolvida pelo IDPF), sua melhor apresentação em plataformas Web e as capacidades tipográficas do formato. Aliás esta é uma reclamação bem comum entre os editores brasileiros que querem uma apresentação no formato digital que seja semelhante, ou ao menos respeite melhor a tradição e as escolhas tipográficas que os livros impressos carregam. Estas dificuldades técnicas poderão ser melhor desenvolvidas através do W3C uma vez que o órgão possui uma estrutura muito maior, com mais experiência e recursos (além de uma abrangência mundial mais capilar e eficiente).

Perigo de fragmentação do mercado

Nem todos, porém concordam que isto seja bom para as publicações digitais. O medo de alguns editores é de que existam riscos nesta transição entre os formatos e, por consequência, uma fragmentação do mercado ainda maior com o aumento dos formatos proprietários (seguindo o exemplo da Amazon). O temor não é só por questões técnicas, mas sobretudo pela mudança de modelo de negócio que isso pode implicar. Até agora o modelo de formato digital “empacotado” permitia a reprodução em ambiente digital seguindo o mesmo modelo de negócio (ou ao menos muito parecido) presente no impresso. O editor produz um “objeto” digital (= arquivo ePub) que é vendido por unidades a um preço específico. O modelo de leitura online apoiado pelo W3C abriria mais as portas para outros modelos de negócio, como por exemplo o de assinaturas, ou de “streaming de livros”.
Segundo Marcelo Gioia, da Bookwire, que estava no evento do dia 18 de janeiro onde foi ratificada a união das entidades, “…há riscos no merger, mas parece haver maiores riscos em continuar isolado, já que o W3C publicamente anunciou investimento em Publishing Tools e Portable Web Publications para Open Web Platforms.”

O que vai mudar na prática

Ficamos aqui passivos vendo estas mudanças no cenário do livro digital e nos perguntamos o que vai mudar para o editor? Nada em curto prazo.

Quem já produziu seu livro em formato ePub2 ou 3 irá continuar comercializando desta forma e numa eventual chegada do ePub4 poderá desfrutar o conteúdo do livro já convertido fazendo pequenas adaptações. O ePub já desfruta a tecnologia do W3C para a gestão do conteúdo e o que muda entre os formatos são as especificações externas que podem ser convertidas de um formato para outro.

A mudança mais difícil e radical será quanto ao modo de ver os livros digitais. No Brasil, de um modo mais acentuado, os editores veem o digital como uma reprodução do livro impresso (talvez por estarem acostumados com o PDF) enquanto sabemos que uma publicação digital é muito mais do que isso. Um livro digital não pode ser pensado e projetado da mesma forma como fazemos com o impresso porque tratamos de suportes físicos diversos. Temos diferentes tamanhos de tela e, sobretudo, usos, funcionalidades e peculiaridades que variam de uma plataforma de leitura para outra. Só para exemplificar, quem está lendo em um smartphone encontra-se em uma atitude (física e mental) diferente de quem lê em um computador ou em um e-reader e, por consequência, precisa das informações apresentadas e dispostas de maneira diferente. A Web já compreendeu isto e implementou o layout responsivo. Agora com a entrada do W3C estes recursos aproximam-se também dos livros digitais.

A chegada de um formato com recursos tipográficos mais avançados e, portanto, com um melhor design, será muito bem-vinda e espero faça jus à tradição tipográfica que os impressos desenvolveram ao longo dos séculos.

Enfim, na minha opinião, os livros digitais têm tudo a ganhar com o W3C e esta união é algo que faz todo sentido, pois o caminho a ser percorrido pelos editores é o de dar acesso ao conteúdo em qualquer forma em que este possa ser lido (impresso ou digital), e a melhor maneira de realizar essa difusão é através da Web…

Fonte: Abrelivros

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