Cultura

Jorge Mautner lança Kaos Total com textos inéditos

Por Daniel Oliveira.

As noções de kaos com k, amálgama e simultaneidade conduzem o pensamento de Jorge Mautner desde meados dos anos 1950, quando escreveu o seu primeiro livro, Deus da Chuva e da Morte. “Hoje estão acentuadas. E o que norteia tudo é nunca mais o holocausto e irradiar a impressionante grandeza da cultura do povo brasileiro”, diz o compositor, filósofo, poeta e escritor sobre a sua obra.
Essas ideias, que harmonizam conceito e poesia, são discutidas por ele com entusiasmo, sobretudo ao falar das  contribuições do Brasil para o mundo.

“O amálgama é nossa originalidade total. A internet, que faz dez anos virarem dez segundos, satélites, foguetes, celulares, não funcionariam sem o nióbio nosso, 95% do nióbio do planeta é brasileiro. Então essa instantaneidade é uma das características do kaos com k, o cálculo da incerteza, que reflete o amálgama brasileiro, na cultura, na ciência, nos arquétipos, na visão da simultaneidade”, explica o filho de pais imigrantes, que fugiram do holocausto para o Brasil durante a Segunda Guerra.

“Mais um exemplo, na década de 1960 os japoneses chegaram ao bairro da Liberdade, em São Paulo, e imediatamente a umbanda criou o Orixá Samurai. Isso é instantâneo”.

Entrelaçados na música, na militância política e na sua obra filosófica-literária, esses pontos de vista são apresentados no  livro Kaos Total, lançado em janeiro pela Companhia das Letras. O trabalho reúne pinturas, poesias, letras de canções, prosas poéticas e fragmentos escritos ao longo de 60 anos. Um amálgama da obra do auto-intitulado “profeta, filósofo, poeta, agitador e pacificador”.

Para chegar nesse resultado, João Paulo Reys e Maria Borba, que integraram a equipe de roteiristas do programa Oncotô?, apresentado por Mautner na TV Brasil, foram fundamentais na organização da obra.

Catalogação e triagem

“A gente já era fã do Jorge, mas nos aproximamos nessa época. E logo depois veio a morte do Nelson Jacobina (principal parceiro de Mautner). E o Washington Cavalcanti, amigo dele de São Paulo, que é um cara supermaneiro e apoia projetos de arte, botou uma pilha em nós, também tinha ficado tocado com a morte. Isso mais ou menos em 2012”, conta Reys.

Dessa forma, iniciaram a criação do site  Panfletos da Nova Era,  homônimo ao livro publicado pelo autor em 1980. Lá foram reunidos, inicialmente, os discos, o seu filme, O Demiurgo e trechos de outras obras. Nessa mesma época, João Paulo e Maria foram até a casa de Mautner para cavucar novos materiais.

“A gente foi ao apartamento do Jorge e vimos a quantidade absurda de coisas que ele tinha, que sobreviveram a muitos expurgos, porque ele se mudou várias vezes. Ele não é um cara exatamente apegado, não tinha as coisas organizadas. Tinha muito papel, cadernos diversos, tralhas, saquinhos cheios de pequenos pedaços de papel, cupom fiscal, borderô de passagem de 1980. Só que no verso de alguns tinham poemas. A gente carregou esse material inteiro”.

“Descobrimos que a obra  de Mautner conhecida publicamente era apenas a pequena ponta de um imenso iceberg completamente desconhecido”, completa Maria.

Depois disso, eles elaboraram um projeto, com financiamento do Itaú Cultural através da Lei Rouanet, para catalogar no site essa produção inédita. “A partir daí foi pegar essas caixas e fazer pentes finos e triagem. Trabalho de biblioteca, pegar cada papel, passar uma vassourinha, identificar o que é, fazer ficha catalográfica, colocar num envelope e num arquivo. E isso deu uns 5 mil itens mais ou menos arquivados”, diz Reys.

Fizeram uma pasta com o material original e, por sugestão de Mautner, levaram à Companhia das Letras. Até o lançamento, o esforço foi de organização e curadoria. “Então chegamos nesse formato, com as letras, as poesias, os fragmentos, a prosa poética e os desenhos no começo. E aí foi o trabalho do livro mesmo”.

Material variado

Assim surgiu Kaos Total, uma síntese atualizada desse trabalho, que possui obras antigas, como todas as letras de canções gravadas, a exemplo de Vampiro e Maracatu Atômico, e o Programa do Partido Revolucionário do Kaos, criado por Mautner em 1954, mas também pinturas, versos, poesias e fragmentos com reflexões filosóficas inéditas até então.

Tudo isso, obviamente, na perspectiva do kaos, que, nas suas palavras, “também é uma visão que inclui literatura, filosofia, ciência e história e tem quatro significados: Kamaradas Anarquistas Organizando-se Socialmente; Kristo Ama Ondas Sonoras; Kolofé Axé Oxóssi Saravá; e a última cada um escreve o que quiser”.

Em tempos de aceleração do amálgama com a internet, o septuagenário Mautner é cada vez mais esperançoso com o futuro do país. Ele diz que a crise econômica e política é artificial e que vivemos um tempo de exacerbação da democracia no país. “Hoje tem essa simultaneidade, todo mundo é poeta e escreve nas redes sociais”.

Ainda para 2016, já prepara o lançamento do  seu novo livro, Não Há Abismo Em Que O Brasil Caiba, que terá dez volumes e está previsto para o segundo semestre. Nesse período, Mautner entra em turnê com Jards Macalé e faz quatro shows em Salvador, entre os dias 15 e 18 de dezembro, na Caixa Cultural.

Fonte: A tarde

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *