Cultura

Como livros infantis podem reforçar estereótipos de gênero

Por Naiara Albuquerque.

No dia 27 de agosto o escritor britânico Simon Ragoonanan, do blog Man vs. Pink, criticou em sua página do Facebook uma das passagens do livro “Growing Up for Boys” (Crescendo para garotos, em tradução livre) de Alex Frith. Em pouco tempo, a obra publicada pela Usborne, uma das maiores editoras britânicas, levantou críticas sobre como livros infantis podem ser sexistas.

A passagem do livro criticada pelo escritor acompanhava uma imagem de seios de mulheres e uma explicação sobre para que eles servem: “As meninas têm seios por dois motivos. O primeiro é produzir leite para bebês. O segundo é para elas parecerem mais crescidas e atraentes. Praticamente todos os seios, não importando o tamanho ou o formato, servem para ambas as coisas quando uma garota está na puberdade.”

Publicado em 2013, o livro não havia sido criticado até então, apesar da editora Usborne já ter se envolvido em polêmicas desse tipo antes. Em 2014, a campanha Let Books Be Books (Deixem os livros serem livros, em tradução livre) pedia para que os livros da publicadora não fossem mais rotulados como sendo para meninas e meninos.

“Um livro franco e amigo que oferece conselhos a rapazes sobre o que esperar da puberdade e como permanecer feliz e confiante enquanto passam por mudanças físicas, psicológicas e emocionais ” Descrição na Amazon do livro Growing Up for Boys

Além da crítica do escritor, muitos leitores deram avaliações negativas ao livro no site da Amazon, empresa de venda na internet, e passaram a chamá-lo de sexista. A Usborne se desculpou e garantiu que o livro será retirado das livrarias. “Nós sempre nos esforçamos para criar um material cuidadosamente pesquisado e escrito para crianças e jovens adultos, assim como comunicar questões da maneira apropriada. Mas, neste caso, reconhecemos que cometemos um erro”, disse a editora britânica em nota.

Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, Ragnoonanan criticou mais uma vez a publicação da Usborne: “Isso foi terrível e completamente injustificável. A Usborne está vendendo estereótipos de gêneros para crianças”, disse.

Livros de meninos e de meninas
O processo de publicação de um livro infantil no Brasil é longo e passa por uma cadeia que dura, no mínimo, seis meses. Curadoria, seleção, negociação com os autores e ilustradores, edição, diagramação e revisão são algumas dessas etapas.

Livros para crianças e jovens servem como uma porta para, muitas vezes, a apresentação de outras culturas ou gerar empatia. Podem também, por outro lado, perpetuar certos costumes e ideias, como estereótipos de gênero. Ideia que não é restrita ao mundo editorial. Brinquedos também são comumente rotulados como “coisa de menina” e “coisa de menino”.

No mundo dos livros, histórias sobre monstros, guerras e carros são associados à figura masculina. Enquanto livros sobre princesas e contos de fada são costumeiramente indicados para meninas. Para Mell Brites, editora da Companhia das Letrinhas, isso é um erro. Não cabe à editora estabelecer essa diferenciação de gênero. “Os interesses de cada criança vão muito além do gênero”, disse.

Brites conta que o mercado editorial de livros infantis costuma acompanhar assuntos e acontecimentos que estão em destaque no mundo. Obras que abordam guerras, empoderamento feminino, sexualidade e gênero estão em alta em 2017.

De acordo com a editora, livros que colocam mulheres como protagonistas não devem ser de interesse exclusivamente das meninas. “Esses livros [que têm mulheres como protagonistas da história] podem ser mais bem aproveitados pelas meninas, já que o livro está falando com elas, mas nada impede que um menino leia e se interesse também”, disse.

Segundo Brites, “a leitura, seja de uma história de fantasia ou sobre o cotidiano, faz as crianças olharem pro mundo, já que elas costumam se comparar com personagens que estão na história. O livro é uma porta de entrada para reflexão e, consequentemente, para que a criança consiga se construir”.

Fonte: Nexo Jornal

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